Por que parar de consumir carne?

 

A primeira parte desta série de textos pode ser vista aqui.

Se você mesmo ainda não se questionou sobre o próprio consumo de carne, pode se perguntar o que leva alguém a fazer isso. É claro, sempre existiram pessoas esquisitas de hábitos estranhos, mas o estereótipo de desnutrido e fraco parece não fazer mais sentido quando vemos que cascas grossa como Mike Tyson e Nate Diaz também não comem carne, e deve haver uma razão pra isto.

Em verdade, não existe apenas uma razão, mas diversas delas. Vou me concentrar nas três principais:

  1. A tomada de consciência de que os animais não estão aqui para nos servir, mas sim para compartilhar a existência conosco, e de que, enquanto seres senscientes, sentem dor e são dignos da nossa compaixão;
  2. O reconhecimento de que o planeta Terra já não suporta tamanha exploração em virtude de nossas ambições megalomaníacas e do nosso desejo de satisfazer um paladar culturalmente adaptado ao consumo de carnes; e
  3. A percepção de que uma alimentação rica em carne e alimentos de origem animal é prejudicial para a saúde e o desejo de aumentar a qualidade e a expectativa de vida.

Completam a lista motivos relacionados a crenças espirituais e religiosas e intolerâncias e preferências alimentares.

Não podemos continuar sem estabelecer algo importante aqui: o que está em questão não é se o ser humano está biológicamente adaptado ao consumo de carnes, se o consumo de carnes foi importante para nossa sobrevivência e desenvolvimento como espécie, ou mesmo se deixar de comer é necessariamente melhor para a saúde e muito menos superior como estratégia dietética para atletas. O que está em questão é simplesmente que, primeiro, é completamente possível ser vegetariano e saudável e, inclusive, um atleta de alto nível e, segundo, é urgente que começemos a valorizar a vida dos animais e a cuidar do planeta em que vivemos e onde, esperamos, viverão nossos filhos e netos.

Comer carne deixou de ser uma necessidade humana. Pelo o que tenho percebido não vivemos mais em cavernas e saímos delas todos os dias com a única preocupação de conseguir o que comer. Me parece que temos feiras, supermercados e aplicativos de celular que nos oferecem comida farta e, não raro, sentamos à mesa com nossos pets, que por alguma razão curiosa parecem ter uma vida mais valiosa que uma galinha, um porco ou uma vaca. Aliás, arrisco dizer que 90% das pessoas que eu conheço se recusaria a comer carne se tivesse de matar um animal com as próprias mãos – coisa que eu mesmo fiz durante as instruções do Exército, dentro de um contexto completamente específico: o de sobrevivência.

Certa feita, diante do bombardeio de argumentos pró abate de animais desencadeado por um voraz comedor de carnes (e que mal tira a bunda do sofá), respondi que “para aqueles que foram tocados pela causa do vegetarianismo, nenhum argumento é necessário. Para os que ainda não, nenhum argumento é suficiente’’ – e esta é, fundamentalmente, minha posição. Se de alguma forma isso fez sentido pra você, considere o vegetarianismo. Caso contrário, está tudo bem. Eu já estive no seu lugar e não via sentido nisso tudo também. Contanto que haja respeito, podemos continuar dividindo o banco de supino e até a mesa no almoço. Cada um com a sua marmita.

No próximo capítulo da série vou falar sobre os tipos de vegetarianismo e as barreiras encontradas por aqueles que optam pelo lado verde da força (e como superá-las). Enquanto isso, você pode acompanhar minha rotina de treinos e alimentação no IG em @filipetestoni. Bons treinos e coma seus vegetais!

Sobre o autor: Filipe Testoni é nutricionista, especialista em Nutrição Vegetariana, Primeiro-tenente da Reserva do Exército Brasileiro e 2x campeão de fisiculturismo clássico pela IFBB/SC.