Afinal, alimentos com gordura podem aumentar a glicemia?

Se há um assunto que causa dúvidas e dezenas de questionamentos é a ingestão de alimentos com gordura. Isso porque muita gente sabe como eles influenciam no aumento do tecido adiposo, como afetam o sistema cardiovascular e como alteram os índices de colesterol e triglicerídeos.

Porém, boa parte da galera desconhece como eles podem interferir na glicemia e, com isso, desregular todo o funcionamento do organismo. Por essa razão, trouxemos um post completo sobre o assunto. Confira e fique por dentro dele!

Como funciona o processo de absorção dos alimentos que consumimos?

Ao contrário do que muitos acreditam, o processo de absorção dos alimentos acontece, em sua maior parte, no duodeno — que é a porção inicial do intestino delgado —, não no estômago. Isso porque a função desse último se concentra na absorção da água e na formação do quimo — que é o bolo alimentar misturado ao suco gástrico.

Portanto, podemos dizer que é nessa região do organismo onde a mágica acontece — e não é exagero dizer isso, viu? Afinal, somente nela ocorrem a ação de três sucos: o pancreático (proveniente do pâncreas), o biliar (proveniente do fígado, mas liberado pela vesícula biliar) e o entérico (proveniente do próprio duodeno).

No caso do suco entérico, que também é chamado de suco intestinal, há a presença de diversas enzimas (como a maltase, a sacarase, a erepsina, a lactase, a lipase etc.). São elas as responsáveis por digerir, quebrar, catalisar e transformar quimicamente o máximo de nutrientes possíveis, como as proteínas, os carboidratos, os aminoácidos, as vitaminas e os minerais.

Dessa forma, eles podem ser absorvidos enquanto passam pelas paredes internas do órgão e entram em contato com as vilosidades do duodeno. A partir daí, os nutrientes que foram absorvidos nesse processo são transportados pela corrente sanguínea para o fígado que se encarrega de estocá-los e realizar a síntese de alguns elementos para, posteriormente, repassá-los aos demais órgãos do corpo.

O que acontece em nosso organismo ao consumirmos alimentos gordurosos?

Quando você ingere muitos alimentos com gordura, especialmente de frituras, congelados e comidas processadas, o seu organismo reage para manter o controle interno. A primeira ação é o aumento do suco biliar, que é produzido pelo fígado e armazenado na vesícula biliar.

A função da bile, como ele também é chamado, é de emulsificá-la e facilitar a absorção dela pelo duodeno para, em seguida, levá-la ao fígado. Porém, dada a alta quantidade dela, a ação do suco biliar e até mesmo da excreção da bílis — que é uma secreção à parte produzida para digerir gordura — não são o suficiente.

Como resultado, a corrente sanguínea transporta diariamente uma quantidade grande de gordura para o fígado que acaba se acumulando nesse órgão e provocando a chamada esteatose hepática, uma doença que afeta o bom funcionamento dele.

Para se ter ideia da dimensão do problema, ela faz com que as toxinas do corpo não sejam eliminadas adequadamente, o estoque de vitaminas e minerais necessários para todo o organismo seja defasado e a produção da bile fique desregulada — o que leva a uma menor quantidade de bile e de bílis para emulsificar e digerir a gordura e, assim, as quantidades absorvidas pelo duodeno serem cada vez maiores.

Portanto, cria-se um ciclo vicioso sem fim que vai minando a sua saúde pouco a pouco. Porém, não acaba aí. Afinal de contas, essa mesma doença afeta a produção de dois hormônios fundamentais produzidos pelo pâncreas: a insulina e o glucagon.

Ambos têm como função regular a presença da glicose no sangue e evitar que ela chegue (e principalmente se mantenha) em quantidades superior a 130 gm/dL. Do contrário, isso pode desencadear um quadro de hiperglicemia ou, ainda pior: de diabetes. O problema é que alimentos com gordura são conhecidos por conterem um alto índice glicêmico.

Isto é, são ricos em carboidratos que, uma vez absorvidos na parte inicial do intestino delgado, liberam açúcar no sangue. Logo, ocorre um impasse. Isso porque você tem uma alimentação que favorece o aumento da glicose ao mesmo tempo que inviabiliza o correto funcionamento dos hormônios que podem controlá-la.

Para completar, à medida que a quantidade de glicose aumenta na corrente sanguínea, também aumenta a da citocina interleucina-6 (IL-6) que está diretamente relacionada ao sistema imunológico e é responsável por combater infecções ou lesões que causem problemas inflamatórios no organismo. Ou seja, é mais uma ação do corpo tentando evitar que novas doenças se desenvolvam e evoluam (como é o caso do diabetes).

No entanto, o excesso dessa citocina provoca efeitos adversos, como uma maior dificuldade da fosforilação oxidativa — que é um processo anaeróbico à parte que também ajuda a degradar a glicose para além da tríplice ação do fígado, do duodeno e do pâncreas — e uma menor expressão da GLUT4.

Para se ter ideia, essa proteína é a principal transportadora de glicose entre as células e qualquer alteração na atuação dela provoca sensibilidade à insulina, além de prejudicar a fonte de energia usada pelo sistema osteomuscular e cardiovascular. Por isso, é tão importante estar atento ao que você ingere, pois, mesmo sem se dar conta, você pode estar se auto sabotando.

Qual a importância de controlar o consumo de alimentos gordurosos, principalmente em pessoas com diabetes?

Como falamos nos tópicos anteriores, o consumo frequente de alimentos com gordura já é extremamente prejudicial para pessoas sadias. Porém, o risco triplica quando você tem uma doença crônica como o diabetes, especialmente quando é do tipo 2.

Isso porque, além do seu pâncreas não produzir regularmente a insulina, o seu próprio organismo cria uma maior resistência a ela, como apontado pelo relatório da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).

Dessa forma, há um aumento contínuo da glicemia que causa uma sobrecarga de trabalho dos rins — que tentam insistentemente eliminar o excesso de açúcar, levando-o a ter uma micção frequente — e a uma falha progressiva na distribuição de energia entre as células, o que acarreta uma série de complicações associadas à doença.

Logo, qualquer descuido quanto à alimentação deve ser evitado. Para tanto, o acompanhamento com um nutricionista é essencial.

Como deve ser feito o monitoramento de glicemia em pessoas com diabetes após uma refeição rica em gordura?

Se você comer algo gorduroso, mesmo tendo diabetes e conhecendo os riscos que esse tipo de comportamento implica, saiba que é preciso fazer o monitoramento da glicemia. Porém, é preciso não se desesperar, certo? O motivo disso é que nem sempre ela será imediata após você terminar o prato.

Na verdade, é o responsável da área da saúde que faz o seu acompanhamento médico que definirá não só qual a frequência diária ideal de controle glicêmico, como também a duração do intervalo entre a sua última refeição e a próxima medição.

Para isso, ele levará em conta o tipo de diabetes que você tem, a presença de doenças secundárias, o seu estado atual de saúde e os resultados dos seus hemogramas mais recentes. A partir daí, ele definirá um cronograma de medições e indicará também o tipo de monitor glicêmico que você pode utilizar em casa nessa situações.

Como você viu, o consumo de alimentos com gordura pode não só aumentar as taxas de glicemia, como também provocar uma série de problemas no funcionamento do seu organismo — em especial no fígado e no pâncreas. Portanto, é crucial rever o que vai à mesa e adquirir novos hábitos alimentares, ainda mais se você deseja ser um atleta e ter treinos de alto nível.

Curtiu o assunto do post? Pois aproveite para saber quais são as melhores fontes de proteína para quem treina!