Tudo sobre imunonutrição – Por: Adam Abbas

Não é de hoje que se tem por ideia o uso da alimentação para melhora na imunidade e função imune. Com certeza você já ficou doente e sua tia sugeriu uma “canjinha com muito macarrãozinho e frango, pouco sal’’. De fato, tal desenrolar dos nutrientes na modulação imune data do século XIX, passando pela segunda guerra mundial e mais recentemente, com a melhora de pacientes por nutrição paraenteral total, trazendo a tona a chamada ‘’imunonutrição’’ com produtos direcionados para esse fim (1).

No campo de desempenho e performance, a indústria farmacêutica, de alimentos e suplementos alimentares tem por carro chefe a venda, principalmente, de vitaminas e minerais, popularmente associados com melhoras na fadiga, no estresse físico e mental e também na imunidade (2). Sabe-se ainda que O atleta de alto rendimento apresenta maior propensão à imunossupressão, catabolismo proteico e outros efeitos deletérios resultantes de alterações hormonais durante a prática extensiva. Numerosos estudos demonstram efeitos colaterais (overtraining) além de infecção do trato respiratório superior promovidos por exericicio extenuante (3,4,5). Na literatura, verifica-se alguns artigos sobre suplementação e imuno modulação, com especial atenção àqueles relacionados a proteínas e aminoácidos, já que são fundamentais para homeostase energética e estrutural, crescimento e desenvolvimento tecidual e modulação em resposta imune.

Conceitos Chave

Interlencinas – As interleucinas (do grego, entre células brancas) são alguns tipos de proteínas produzidas principalmente por leucócitos (principalmente por linfócitos T, macrófagos e eosinófilos) cada uma com suas funções, sendo que a maioria delas está envolvida na ativação ou supressão do sistema imune e na indução de divisão de outras células. Também possuem função na memória e são usados como medicamento. (6)

Fator de necrose tumoral (sigla em inglês: TNF) – refere-se a um grupo de citocinas capaz de provocar a morte de células (apoptose) tumorais e que possuem uma vasta gama de ações pró-inflamatórias. O TNF alfa é secretado principalmente por macrófagos. Seu mal funcionamento pode causar inflamações dolorosas em doenças auto-imunes, choque séptico e permitir o aparecimento de tumores. Inibir sua atuação tem efeito positivo em pessoas com doenças inflamatórias como artrite reumatoide e doença de Crohn. (6)

Interferon – é uma proteína produzida pelas leucócitos e fibroblastos para interferir na replicação de vírus, bactérias e células de tumores e estimular a atividade de defesa de outras células. Existem três tipos de interferon, classificados de acordo com o receptor celular e resposta que ativam. São um tipo de citocina produzida por todos os animais vertebrados e alguns invertebrados. (6)

 

Potencial redox e efeitos celulares.

A prática regular de exercícios de intensidade moderada tem demonstrado eficiência e positividade na reestabelecimento da homeostase durante desbalanços fisiológicos, sendo prescritos como estratégias para disfunção hormonal. A maior parte das respostas imunes mediadas pela atividade física reside na ação de hormônios e sinalizadores celulares liberados durante a prática, além de mediar um balanço entre citocinas pró-inflamatórias e anti-inflamatórias. A ativação da resposta imune e adaptações fisiológicas pós pratica de atividade estão relacionadas a lesão muscular, que leva a uma inflamação local, que é função do tempo e do estimulo ofertado ao musculo. O estimulo moderado é essencial para recrutamento de fatores de crescimento locais, que resultam em remodelamento ósseo, além de hipertrofia tendinea e muscular. A dor tardia muscular é mediada por aminas vasoativas (serotonina, histamina) além de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio, recrutamento de leucócitos, além de liberação de citocinas, causando dor, edema, calor, até que haja resolução do problema. Sabe-se que a consistência na pratica da atividade leva a mecanismos de adaptação aos sistemas redox, diminuindo o estresse oxidativo, dor muscular e injuria. Entretando, a pratica errônea da mesma pode ter efeito contrário, uma vez que diversas proteínas musculares, como bombas de sódio, potássio e cálcio, além dos complexos actina-miosina-troponina e tropomiosina são sensíveis a variações no potencial elétrico da célula. Logicamente, a célula possui sistemas de controle para variações de seu potencial redox, sendo um dos principais o sistema glutationa. (7,8,9,10)

A glutationa é um tripeptideo linear (GLU-CYS-GLY), quimicamente classificada como um tiol, sintetizado majoritariamente pelo fígado e principal antioxidante celular, sendo a razão de suas formas oxidadas e reduzidas ferramenta para avaliar o estado redox de um sistema biológico. Sua síntese ocorre em dois passos, a primeira resultando da combinação entre glutamato e cisteina via γ-glutamilcisteina sintetase e a segunda via GSH sintetase(11).

Oras, é de se esperar então que, um aumento na oferta de nutrientes intermediários a síntese de tais enzimas tenham um efeito de up regulation nas concentrações de glutationa, levando a um controle no potencial redox celular, alterado durante a atividade física. A L-glutamina tem mostrado resultados promissores no controle desse potencial, especialmente quando administrada na forma de dipeptideo (geralmente associado com alanina), uma vez que o transportador enteral é mais responsivo a di e tri peptídeos que a aminoácidos livres. Ainda, verificou-se aumento nas concentrações hepáticas de l-glutamina que resultaram em aumento na concentração de GSH no músculo. De fato, a suplementação com glutamina, parece atenuar o dano muscular e a inflamação (TNF-alfa e PgE2). (12,13, 14,15,16)

Ainda, estudos demonstram diminuição no tempo de recuperação pós atividade extenuante após suplementação com glutamina quando comparado ao controle (9)

Observe ainda, na figura abaixo (1), que o transporte de glutamina para o interior celular ocorre concomitante (além de induzir a) à entrada de água, saída de potássio e entrada de sódio, levando a um maior grau de hidratação e resistência a injuria pelo tecido muscular.

 

Ainda, modula indiretamente o fator nuclear kB (NF-kB), inibindo a síntese de citocinas pró inflamatórias, além de ativar a síntese de proteínas heat shock, ou seja, aquelas relacionadas a eventos de stress celular, auxiliando no dobramento e tráfego celular de outras proteínas. Ainda, parte do pool intracelular de glutamina segue para a via oxidativa na mitocôndria (na forma de glutamato), permitindo que essa sirva de substrato para formação intermediários glicogênicos (potencializando a geração de energia em situações de estresse energético) ou ainda para síntese de ornitina, potencializando a produção de oxido nítrico, essencial como agente citotóxico contra patógenos (quando pensamos em fagócitos, como macrófagos e neutrófilos) ou ainda, para melhora na circulação e saúde endotelial (1).

Vale ainda, a ressalva do uso de glutamina em situações como a de algumas (porém não todas) neoplasias. Sabe-se que tumores apresentam metabolismo glicolitico aeróbico preferencial pela via de geração de lactato (denominado efeito Warburg). Ainda que tal via seja energeticamente desfavorável, a célula tumoral se vale de alterações metabólicas que propiciem seu crescimento. Uma delas é a chamada glutaminólise. Uma das consequências de tal efeito é o desvio da produção de energia via ciclo de Krebs para formação de lactato além de lipogênese, via citrato. (17)

Referências bibliográficas

1 – Cruzat et al. Journal of the International Society of Sports Nutrition 2014, 11:61; http://www.jissn.com/content/11/1/61

 

2 – Nieper A: Nutritional supplement practices in UK junior National track and field athletes. Br J Sports Med 2005, 39:645–649.

 

3 – Gleeson M: Immune function in sport and exercise. J Appl Physiol 2007,103:693–699.

 

4 – Gleeson M, Nieman DC, Pedersen BK: Exercise, nutrition and immune function. J Sports Sci 2004, 22:115–125

 

5 – Kreher JB, Schwartz JB: Overtraining syndrome: a practical guide. Sports Health 2012, 4:128–13

 

6 – Abbas, Lichtman. In: Imunologia Celular e Molecular. 5a ed., Saunders, Rio de Janeiro, 2005.

7 – Sorichter S, Koller A, Haid C, Wicke K, Judmaier W, Werner P, Raas E: Light concentric exercise and heavy eccentric muscle loading: effects on CK,MRI and markers of inflammation. Int J Sports Med 1995, 16:288–295.

8 – Bryer SC, Goldfarb AH: Effect of high dose vitamin C supplementation on muscle soreness, damage, function, and oxidative stress to eccentric exercise. Int J Sport Nutr Exerc Metab 2006, 16:270–280.

9 – Cruzat VF, Tirapegui J: Effects of oral supplementation with glutamine and alanyl-glutamine on glutamine, glutamate, and glutathione status in trained rats and subjected to long-duration exercise. Nutrition 2009, 25:428–435.

10 – Krause MS, Oliveira LP Jr, Silveira EM, Vianna DR, Rossato JS, Almeida BS, Rodrigues MF, Fernandes AJ, Costa JA, Curi R, De Bittencourt PI Jr: MRP1/GS-X pump ATPase expression: is this the explanation for the cytoprotection of the heart against oxidative stress-induced redox imbalance in comparison to skeletal muscle cells? Cell Biochem Funct 2007, 25:23–32.

11 – NELSON, D. L.; COX, M. Lehninger – Princípios de Bioquímica. 3ed. São Paulo: Sarvier, 2002

12 – Newsholme P: Why is L-glutamine metabolism important to cells of the immune system in health, postinjury, surgery or infection? J Nutr 2001, 131:2515S–2522S. discussion 2523S-2514S.

13 – Wernerman J: Clinical use of glutamine supplementation. J Nutr 2008, 138:2040S–2044S.

14 – Roth E: Nonnutritive effects of glutamine. J Nutr 2008, 138:2025S–2031S.

15 – Nässl A-M, Rubio-Aliaga I, Fenselau H, Marth MK, Kottra G, Daniel H: Aminoacid absorption and homeostasis in mice lacking the intestinal peptide transporter PEPT1. Am J Physiol Gastrointest Liver Physiol 2011, 301:G128–G137.

16 – Curi R, Newsholme P, Procopio J, Lagranha C, Gorjao R, Pithon-Curi TC: Glutamine, gene expression, and cell function. Front Biosci 2007, 12:344–357.

17 – K. R. Mattaini, M. G. Vander Heiden, Glycosylation to adapt to stress. Science 337, 925–